quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A bondade

Foi quando ela entrou pela porta. Olhou para os quatro cantos sem ver realmente. Baixou os olhos desconfortavelmente e sentou-se no acento mais próximo. Ali tudo estava visto e sabido. Ela era a menina dos olhos. Dos olhos de quem? De quem quisesse amiga ou namorada ou companhia. Ou ainda de quem sentisse falta de gentileza.
Nos olhos dela havia, sobretudo, boa vontade. Boa vontade esta que fundia-se e confundia-se com ternura. Que aos olhos mais desatentos era apenas gentileza. Apenas gentileza... A gentileza, que não consegue ser “apenas”. A gentileza é a gentileza e já é um carinho.
Tinha ares de amiga. Era bater os olhos nela e ver que ali existia pessoa de verdade, pessoa boa. Seus olhos davam grande contribuição para esse aspecto: meigos, mansos – uns olhos de paz. Era, também, atenta. Talvez conseqüência (ou uma das causas) da boa vontade que levava e fazia sentir. Não era, de longe, perfeita. Mas não é difícil supor que de perto talvez pudesse parecer. Ela nem mesmo tinha consciência de seus encantos, julgava-se da maneira mediana que uma pessoa pode julgar a si: estava na média da beleza e da educação, não era nem feia nem muito bonita, talvez fosse suportável por algum tempo e tinha modos convencionais. Seu pior defeito fosse não ter consciência de si. Ou não, talvez, se tivesse consciência de suas belezas mais sutis e delicadas, talvez começasse a usar suas formas a ponto de desgastá-las ou deixá-las menos interessantes. Talvez tornaria-se vulgar como as outras, que dependiam excessivamente do encanto proposital. Mas isso não pertencia a ela, não nascera assim e dificilmente viria a corromper-se. Ela era limpa de ornamentos e isso a tornava única sem que ela se desse conta ou se orgulhasse ou envaidecesse.
E ninguém entendia, mas todo mundo sabia que ali havia bondade. A Bondade que ninguém sabia por que nem de onde vinha.