sábado, 30 de junho de 2012

sábado, 23 de junho de 2012

Jorge

A hora já não era a mesma, perdera aquela urgência de antes, o inadiável ficou para nunca mais.  Jorge abaixou-se para tirar os sapatos e as meias. Estirou-se no sofá. Escorregou por ele. Fechou os olhos. Daí passaram-se dias, meses, anos. A vida deixou de ter importância, a vida deixara de ser, Jorge era um homem e o sofá o que importava.

Abriu os olhos, tudo era igual, as coisas as mesmas de trinta segundos atrás, quando fechara os olhos para esquecer que estava ali. Não havia se passado nem um minuto, e Jorge já sentia o peso do mundo dentro de si e as rugas cavando o entorno de seus opacos olhos.  O tempo estava escuro, o relógio estava parado.

Jorge não sabia das horas, mas não era cedo, e a urgência escapara-lhe pelas mãos. Por onde havia andado, com quem haveria de ter estado? Não tinha lembranças, a memória era turva, viver parecia que não lhe acontecera. Jorge queria esquecer. Esquecer o quê? A vida que não fora, os amigos que não tivera, os dias que passaram iguais, ele que estava sempre o mesmo, sempre o Jorge, aquele Jorge, o irremediável Jorge, o que sempre estaria ali e do mesmo jeito, não importando quando fosse.  Jorge perdera a urgência, isso já está claro. Mas será que algum dia teve pressa, será que algum dia teve por quê?

Jorge estava cansado, a barba já não era feita há dias, os olhos impregnados pela fadiga. Jorge precisava fugir. De onde, para onde, de quê? Tinha medo. Então fechou os olhos. Preciso fugir, pensou. Mas sentia tanto medo que começou a se encolher no sofá, e colocou os braços sobre a cabeça, precisava se proteger (de quê mesmo?). Então começou a chorar, chorar, chorar. Levantou, abriu os olhos. Quanto tempo sucedera? Não sabia, talvez dez minutos, três horas, um dia inteiro. Jorge queria fugir, mas sentou-se no chão. Ficou ali, as horas passaram, Jorge levantou-se e parou de chorar quando o sol ameaçou com sua luz. Daí tomou banho e vestiu-se, engoliu um biscoito, foi trabalhar. Deixava-se levar. Não sabia para onde correr de tanto vazio.

domingo, 17 de junho de 2012

Gertrudes

Se Gertrudes ousasse erguer os olhos pra mim, sorrindo, talvez eu me visse impelida a fitá-la indiferente. Se Gertrudes viesse rodear-me num abraço, talvez eu a empurrasse para longe. Se Gertrudes começasse a despejar sua vida em confissão, talvez eu de súbito me retirasse. Se Gertrudes viesse perguntar o que me acontecia, talvez eu só conseguisse chorar, e talvez o choro fosse só de raiva. Se Gertrudes perguntasse a respeito do amor, eu diria que talvez ele nem existisse mais. 

sábado, 9 de junho de 2012

Encantado

És de um lugar que desconheço
O teu reino não é daqui
É onde haja sol,
Chuva e outono
É onde não precisas de agasalhos.

Teu reino é posto em água cristalina
e pedrinhas redondas.
É de picolé
e passeio de fim de tarde
De fotografias róseas, 
palmeiras infinitas
e árvores frondosas.

Teu reino
é essa tua alma gentil
é teu coração
é tudo infinito
Onde o mal não tem vez.

Me traz contigo,
E me traz esse teu reino
encantado
Que não sei onde fica
Mas que está em ti
em
tudo
o
que
fazes.

sábado, 2 de junho de 2012

Quimera

Que perigo eu lendo-te, só, cá no meu recanto. Que perigo para nós. Que perigo minha imaginação trazendo-te para tão perto assim. Não fales tão entregue, que tenho vontade de recolher-te. Não fales tão simples, que tenho vontade de acomodar-te. Não fales tão suscetível, que tenho vontade de proteger-te de todo o mal.

É noite, e a música tão melódica que sinto saudades. Já é noite e nós mal amanhecemos. Ainda é noite, eu não tenho sono, quanto a ti, não sei. Mas ainda é noite e eu quero um dia mais, e logo. O sabor tão recente da companhia nova e boa.

Joguemos ao vento algumas flores, roxas e amarelas. O que isto diz para nós? Onde está a beleza nisto tudo? Em nós. Procuremos um lugar vazio e fresco para sentarmo-nos a sós e esperar o tempo, a falar, a calar, a pausar. Há beleza nisto? Há. Quem passa e nos percebe ali sabe e consente. Talvez até esteja frio, talvez o tempo esteja cinza – e não há nisto metáfora, falo do tempo mesmo, do céu, do ar. Há beleza nisto. Aquiescemos.

Estamos passando. Ruflam os tamborins, os dedos, os tambores, os corações, as asas do pássaro, as bandeiras. Estamos passando e nossos olhos sorriem. Não toco-te com as mãos, mas meus cabelos esbarram no teu ombro. Pareando-te, olho-te de onde estou: que bonito. Que perigo.