quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Dois

Dois cheios enchem
um vazio maior.
Vão embora, imagina, dois.
Um vazio mais vazio.
Um vazio tão tão grande.
Dois cheios deixam um vazio
tão maior quando se vão 
(ou quando ficam pelo meio).

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Festa da insignificância

Um dia as pessoas todas morrem,
antes perdem a memória,
antes envelhecem, 
antes perdem
a saúde
ou deixam fraquejar
o amor.
Sem a menor importância,
deixamos a vida.
O inadiável para nunca mais.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

festa no correio

todo dia eu acerto
uma flechinha de riso em seu peito
o coração se enche de alegria
e vem então você me dizer agradecimento
eu sorrio em surdina satisfeita
vitoriosa
conto vantagem e no dia seguinte já arrisco de novo
vem você então me dizer agradecimento
e se me vê vem você sorrindo canto a canto
e agarra o meu braço
e não solta até ter que soltar
e ganho beijinho até não poder mais ganhar
eu sorrio em surdina satisfeita
me gabo
de tanto em cheio e na mosca e de tanta correspondência
colorida
na caixinha pequena da minha vida.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Clareza

Por vezes meus olhos abrem-se mais
 e carrego o coração na beira.
A luz incide no verdejar da árvore
o vento venta e as pessoas ventam passando rápidas.
O sol alto escondido
O concreto apara, a roda veicula
O dia clareia, clareia, clareia.
Está tudo no reflexo dos olhos.
O dia
clareia clareia clareia
Impedimento não há em lugar algum.
O coração na ponta dos olhos,
é como estar apaixonada – por tudo, pelos movimentos todos
Uma clareza absoluta, inconsequente, louvável.
Tudo ficou límpido de repente,
sigo um impulso: escrevo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O duplo

Por trás de quem somos, há os fantasmas que apontam acusando-nos de não sermos outro. Por trás de nós, há o sibilo do inquiridor ressoando: não é o suficiente, ele diz. Enquanto realizamos ou deixamos escapar, há próximo o que nos cerca, vigia e condena - em silencio, na memória, ao longe e por dentro. Um duplo sarcástico, profetizador de fracassos, impiedoso, quase invejoso e um pouco ciumento. Que, oco, nos acusa de sermos pueris. Malicioso, exige de nós excesso de pudor. E ainda que agrida, requer nossa docilidade. Ele grita para que estejamos em silêncio e propõe diálogo, fechado em sua retórica. Se agiganta, enegrecem-lhe os olhos e, então, dita, assertivo e teatral, o grotesco. 

Tu me alcanças, o que desejamos é a digestão do vil palavrório. Giramos em torno de nós mesmos ao som de um sambinha melódico e calmo. Nesse ínterim, o resto é o resto - e imerge.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Incongruente

Nesse fio frouxo
firme
que nos cinge
soltos
Lançamos as mãos
apertadas
Apoiamo-nos nos olhos
dos outros
Esticamos o nó da corda
desatada.
Nesse vasto passeio
até ali
exploramos a padaria.
E vibramos com a cortesia
de pagar
exorbitante preço de banana
por um abacaxi.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

casaco esquecido na bolsa

seu cheiro é cheiro de casa
ou de festa
ou de festa em casa
ou de fronhas limpas na cama.
Seu cheiro é uma festa na cama de fronhas limpas –
em casa.

vaidade

acho graça 
porque é engraçado
isso de não desejar e ser
desejado.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Ressaca

Tens me infligido tristezas que desconheces
Tens me preenchido de vazios que não assimilo
Tens me talhado com palavras inofensivas
Tens me afastado tentando diálogo
Tens me aborrecido tanto por nada
Tens me magoado em meio a sorrisos
Tens me paralisado com encorajamentos
Tens me encorajado com silêncios
Tens me doído, me doído...
De longe, vindo, tens me doído
À beira do mar dos olhos
tens me doído
de amor ressentido.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

inevitável

guardo essa cena: você no topo da escada
gente ao redor conversa e algazarra
você, só, no topo da escada 
olhava sorria nada dizia.
bem ali eu te escolhi:
pela quarta vez.

Era uma vez um cachorro

Tudo parecia calmo e silencioso...

Mas eis que surge o Ig.

Ig está sem freio. Uuuu! Desliza, dá com a pancinha no chão. Ele sorri e suas orelhinhas voam!

Cuidado com a câmera e com as paredes, Ig. "Sai da freeente! Me besa!", e vai à toda.

terça-feira, 22 de julho de 2014

o tempo tarde

o tempo é tarde
amanhece mas é tarde
o sol se estende, quente
o céu se anuncia, azul
não é meio do dia
mas é tarde
desde muito tempo,
eu era jovem,
já era tarde.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Distância

Não há verdade oculta alguma.
Não vê? É isto mesmo.
Plantas verdes na janela, a janela, o ar frio,
A mesma paisagem de 20 anos.
Os carros veiculam na rua, o movimento da máquina
Não há verdade, há engrenagem.
O homem que caminha, a criança que pula
Sem verdade ou mentira, só envergadura.

Os sentimentos por detrás de cada pensamento, e o sentimento irracional.
Não há verdade no sofrimento, no amor ou na suspensão destes.
Há pausas e continuidades,
Um jarro d’água lançado à parede
Se estatela molha quebra.
Depois seca.

Não há verdade nas palavras –
pensamentos em matéria.
Há desabafo e desejo,
A falta, que também é desejo.
Não há espaços vazios, só estão cheios daquilo
que não sabemos vemos cremos.

sábado, 17 de maio de 2014

Curvatura

O contorno que ganha ante mim varia
Movo meus dias sob a tua égide
Objeto, musa, estima –
Carícia, vislumbre, contentamento
Evoco chuva, realço flores, vibro com gentileza miúda

Todo detalhe só brilha se passa por ti
Toda companhia só é se vieres primeiro
Todo domingo só emerge se a semana nos absolveu em conjunto.
Toda dor só cessa se sabes
Todo amor só vale se tocas

Debaixo das palmeiras, no terceiro degrau da escada
Ilha, vento, varanda, sacada
Rua distraída movimentada
Teu lado uma enseada.

sábado, 26 de abril de 2014

sábado, 8 de março de 2014

Lá, nosso castelo

Do alto do nosso castelo de marfim
Portas de vidro
Janelas de vidro
Entra a luz e também o murmúrio
Dos viventes.

Abraço tua melancolia
Minha
Afago teus cabelos
Meus
Escolho nossa louça
Lavo nossos pés
Ofereço-te ajuda.
Recusas
Aceitas
Varia conforme a gentileza
e o humor.

Encantado reino
Conjugal.
Um vislumbre e o suspiro.
"Bom dia,
boa noite,
obrigada,
Amor".

Nos queremos
Nos teremos.
Corpos nus.
As chaves de nosso castelo,
Só nós possuiremos.

Claro e alegre
Lá, nos asseguramos
Nos seguramos
Embalamos corpos cansados
Corpos aflitos
Corpos satisfeitos
Corpos alegres.
Embalamo-nos
ao som da música
que escolhemos.

Talheres tintilam,
Eis aí o nosso reino conjugal.
Vivemos.
Reparamos.
Assistimos.
Há pincéis.
Há pétalas.
Poucos móveis
Azulejos.
Uma casinha pequena.
Acolho tua mão na minha,
melhor assim.
Caminhamos.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Solilóquio

Avolumei meus livros de poemas comigo.
Neles, tudo o que parece impossível descrever.
Em mim, essa tristeza tamanha e sonora de você.
Eu quase sinto dor, mas eu finjo.
Eu quase grito, mas eu finjo.
Eu quase me desespero, mas eu finjo.

Se eu pudesse, prenderia os seus passos aos meus.
Mas não posso, nem devo.

Amigos? Onde estarão todos eles?
Finjo para mim não tê-los.
Finjo para mim tê-los.
Afinal, sinto-me só,
porque ignorei sua presença,
porque ignorei que precisava fazê-los.

Amontoei meus poucos livros de poemas
comigo.
Finjo para mim,
Que sou poeta como eles.
Mas não me leem – de que me serve?

Escrevi esse poema de forma diversa,
como se estivesse ditando-o em voz alta
a mim.
Ele veio pronto, ele se fez enquanto se fazia.
Eis aí, eis aqui.

Em que eu vou me agarrar

Em que eu vou me agarrar,
Meu Deus?
Em que eu vou me agarrar,
Amor?
Se tu, razão de quase toda a felicidade que conheço,
Parece-me, as vezes, tão tão fugaz?

Não olho pela janela
por já quase não ter esperança,
Mas fico atenta com o vento vindo lá de fora,
Que me deixa sonolenta e impede de chorar.

Acaso me perguntassem hoje,
Eu diria que não tenho nada, que não quero nada, que não gosto de nada.
Acaso me estendessem hoje as mãos, eu respiraria fundo,
E diria, sem falar, que estou à espera.

Meu cachorro, fiel companheiro de silêncios inomeáveis,
Me deixou para sempre.
Nessas horas, e em muitas outras, eu sinto o abismo que é a falta dele.
E choro quando não posso evitar.

Se pudesse escolher alguém, fora tu e ele,
Para quase me compreender, seria alguém familiar,
não alguém que nunca vi.
Mas exijo de mim calar-me,
e não criar compromissos revelando-me além do usual.

Se alguém viesse hoje me perguntar,
Eu diria que quero a certeza de ti,
E de uma vida além do bem, do mal,
do sucesso e do fracasso.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Arritmia

Vejam só ela,
se agarra a sentimentos primários
E a pensamentos sem palavras.
Deixa escapar umas lágrimas
e fica empacada
À espera de que adivinhem sua demanda
a tomem pelas mãos
e a levem no colo,
em segurança.
Vejam só ela,
pequena ainda,
uma menina.
Mas já pega ônibus
sozinha.


réplica

"não tires poesia das coisas."
elas é que tiram poesia de mim,
eu disse, impaciente, a Drummond

Bruta noite

A bruta noite
Cai sobre meus ombros
e o peso é de tudo o que
não soube, não sei.

A bruta noite me atormenta
Eu quase ouço os risos
Eu quase adivinho os assuntos
E sei que onde há fogo
há fumaça.

A bruta noite
insólita
solitária
Queima em pensamentos
hostis.

A bruta noite pede logo
a luz seguinte
Mas ela não se apresenta
ela se nega e descansa
Do outro lado, onde há paz.

A bruta noite me assiste
E se compadece.
Não há saídas, só ameaça e dúvida
Num caminho de espera
E ausência.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

interruptor

é bonito quando você pisca,
disse na hora mesma em que roubou toda a minha poesia
com sua boca de amora.