terça-feira, 19 de julho de 2011

Esse sonho doce

Esse sonho
persistente
Insiste
Em não sair daqui.

Esse sonho,
que em vão tento dissuadir,
Insiste em ser meu
Que o lugar dele é aqui.

Esse sonho
Bom, sonho bom,
Quer que eu o leve a algum lugar
Quer se realizar em mim.

Esse sonho,
Que vive sendo notado
Que parece pesar meus dias
ao ser adiado

Ah, doce sonho...
Que resiste ao tempo
e ao desanimo.
Forte,
Quase heróico,
Quer realizar as façanhas que o prometi.

Tímido e medroso
dos ouvidos e pensamentos
alheios.
Em parte, ali guardado
numa caixa em meu quarto,
quer vibrar em quadras fora dali.

Esse sonho,
juvenil e tolo
mas doce,
Tão doce...

domingo, 10 de julho de 2011

Distantes

Ficava de plantão, tudo o que queria era que alguém precisasse dele. Se distraía com passatempos pouco produtivos e raros, porque tudo o que queria era que alguém precisasse dele. Não ligava, tampouco cogitava procurá-los, mas tudo o que queria era que precisassem dele. As vezes falava por alto com alguém, as vezes até o chamavam para um passeio cheio de gente, mas ele não ia, não queria se aglomerar, tudo o que queria era que precisassem dele. Sumiam, sumiam todos, sumiam por tempos, sumiam sempre, e tudo o que queria era que alguém precisasse dele. Ele ficava sozinho, calado, pensativo, aprendera a lidar com a solidão, e mesmo assim só queria que alguém precisasse dele. Olhava o telefone, tinha raiva que ele nunca tocava pra ele – tinha raiva que não precisassem dele. Esperava notícias, cogitava encontros ao acaso e surpresas que fariam para alegrá-lo, precisava tanto que precisassem dele. Esperava alguém, queria companhia, não suportava mais esperar que alguém precisasse tanto dele. Rabiscava folhas de papel, lembrava de uma ou outra pessoa que poderia precisar dele. Quando precisarem de mim, pensava, eu não vou estar lá – queria se vingar, só de raiva de ninguém precisar tanto dele. Gostava que precisassem, se sentia forte, se sentia cheio, preenchido. Ele nunca precisava deles, quando não estava bem, calava-se – na verdade, não sabia pedir ajuda. E quando estava bem, calava-se também, não sabia direcionar seu ânimo. O que eu não sei, pensou, é ser especial. Quando precisavam, ele ia lá, despendia cuidados, tempo e sutilezas. Ele os colocava de volta no ar, e eles só vinham se precisassem de novo. Tinha medo de precisar e eles não estarem lá. Diziam-se tão seus, mas ele que era deles. Eles iam e vinham quando bem entendiam, sabiam o que ele não queria ver: sempre estaria lá por precisar tanto deles. Só queria que estivessem presentes, e precisava tanto que precisassem dele, porque, lhe parecia, era só quando surgiam – mansos e seus.

sábado, 9 de julho de 2011

Desarranjo

Ela prometeu ser diferente – que ela era diferente. Acreditaram todos. Ela veio uma promessa – ela própria era a promessa, e conduzia promessas suas, distribuindo-as com olhos e ditos animados. Era tão autentica que todos quiseram crer. Ela gerava expectativas. Não era de avisos, era toda imprevistos: seu charme, seu importuno. Ora casual, ora descabida. E como era sempre do mesmo jeito, dependia do humor, ou dos santos baterem, pra gostar dela. Ela preenchia se estava por perto, tinha tanta certeza que era motivo de alegria – e de fato era, que abria espaços, cativava mais pessoas, expandia-se para ser mais. Certa vez ausentou-se um tempo, sentiram tanto a sua falta... Chamavam-na pra perto, mas ela não podia, não tinha tempo, tinha que trabalhar, estava a conhecer gente por algum canto e deixando vazio o canto que conhecia. Até que voltou, querendo que a amassem por ser ela tão boa. E falava demais, e ria de si, e não tinha mais ouvidos porque queria que soubessem dela, e interrompia se falassem, e falava sem parar, e falava, e nada era tão interessante quanto seus casos, seus romances, seus dias e seus novos amigos. Enganara-se consigo mesma. Estava um equívoco. A espontaneidade tornara-se pretensão, só ela não via. Perdera a dose de si, o ego lá em cima a superestimá-la. E quem a tinha visto antes da ausência sentia certo incômodo, padecendo com esperança de tê-la realmente de volta. Preferiam até que ela fosse um pouco embora, pra dar tempo de se rearranjarem com a novidade – ela, que era a novidade. O hábito de sumir e reaparecer, antigo porém desconhecido, a tona: Ela sumiria, com as promessas, com a graça, com a beleza antigas, e também com a leviandade, a presunção e a inebriada vaidade. Ela sumiria e voltaria para uma visita, talvez um almoço, talvez um dia. Os outros esperariam seus regressos, tão vazios dela, sem saber se ausência era saudade ou alívio.

sábado, 2 de julho de 2011

Feito um artesão

Perfeição. Talhava, esculpia, adornava, afastava, olhava, voltava e ajeitava. Procurava a perfeição. Não queria fios soltos, linhas tortas, botões fora da casa. Adornava, adornava, adornava. Quanto afinco, tanto cuidado. Pisava devagar, usava movimentos leves, feições suaves, voz baixa. Era tanto tato, tanto tato, tanto. Tato. Pegava devagar, não queria arranhar, tirar o pleno valor. Que tinha até medo de tocar. Ensinaram-lhe a não mexer em nada, e assim aprendera ao pé da letra. E se manchasse? E se quebrasse? E se machucasse? E se...? Quem saberia. Era melhor que ficasse tudo intacto. Ora conduzia, ora deixava-se conduzir – pelo menos a culpa não seria sua, caso vacilassem. Evitava gritos, tumulto, gente. Evitava tanto gente. Evitava falar demais, sorrir demais, calar demais, emburrar demais. Medindo-se, procurava o ponto médio. Era pra não se exceder. E quando vinha gente pra perto, e não podia evitar, não sabia mais nada da perfeição. Tudo o que tinha era tão torto, tão desastrado, tão simples e desarranjado. Todo o trabalha fora em vão, toda a árdua talha, ficava sem nada. Tudo o que tinha era a espontaneidade. Era tudo o que precisaria ter ao alcance das mãos. Espontaneidade: como tê-la, como tê-la? Pensava em desespero. Coçava o nariz, desabotoava um botão, puxava as mangas da camisa, obrigava os olhos a aquietarem-se, colocava as mãos... Onde pôr essas mãos? Colocava as mãos ora no bolso, ora cruzadas, ora sobre as pernas. Então, era tudo o que tinha de espontâneo para ser usado. Pose. Tanta pose. Já não sabia nada de ser natural. A perfeição esvaziara-lhe o jeito. Mas ainda enchia o peito dum orgulho tolo, duma vontade de ser especial, de ter qualquer atenção. Era um tal de parecer assim, um tal de parecer assado. Perdera-se. Os olhos estavam sempre ou endurecidos, ou vacilantes. Queria ter alguma distinção, procurava por aí, em alguém na rua, ou da TV. No homem de fala arrastada do tal filme, na moça cheia de graça que passava na outra calçada. Queria a perfeição, e por dentro: tudo intacto.