segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Vento (Reeditado)

É acreditar estar forte para uma brisa leve revirar meu tempo e transformar meu pensamento num vendaval. Tanto medo do medo. Tão vulnerável por mim e pelo que não existe ao certo. Tenho medo do que pode estar por perto e chegar sem avisar. Tenho medo do destino e da efemeridade. Quanto a eternidade, é por não saber o tempo que vai durar. E quando acabar?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Presente ausência

O silêncio da sua imagem esvaziou minhas horas. A monotonia da sua ausência inquietou meus dias. Começo a ter dificuldade em visualizar suas cenas. Sua graciosidade pelo tempo é esmorecida. Preciso ver-te antes que a lembrança seja nua de imagens, gestos e de suas pequenas manias.
Meus olhos se contentariam com uma aparição apenas, de relance, num átimo de instante, de preferência no meio do seu vasto riso, sem aviso, daqueles que só existem em ti: cessa na boca, continua nos olhos. Esses seus olhos que sorriem para os passantes e só não vê quem não quer ou é distraído. Que culpa tens, se teus olhos são sorridentes?
Eles sorriram pra mim e você nem sabe.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Pressa

Tateando
A coragem,
achou
A fé.
Apanhou-a na mão e
correu
Colocando-a
No bolso.

Esqueceu-se dela.


Depois,
desaprendera como era usá-la.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

sábado, 14 de agosto de 2010

Guardado

As vezes tenho um pensamento
que anula todos os outros e
por si só
está certo.
É ele que sustenta
esse sonho que levo
e faz eu querer
mais do que tê-lo
Ser contida pelo sonho
e ver meus pés sobre ele.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Vagas imagens (Reeditado)

Minha infância
vai dando sinais de fim.
O mundo
que eu queria congelar
pra mim
parece tentar evitar
as mudanças em vão
Se arrasta
entre as perdas
que precisa superar,
Teme finalmente abrir os olhos
e notar
que aquele mundo
não mais existe.

Aqueles quintais de terra
virando pó
e aquelas pessoas de sempre
tão antigas
virando estrela
e poeira
e tudo virando lembrança.

O sol não mais iluminando
as telhas vermelhas,
Minhas férias
não mais em um interior de paralelepípedos.
Meu cachorro mais como um instante.
Meus pais mais cansados.
Minha irmã mais remota.
Eu mais sisuda.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Dessas coisas

Pego-me na ansiedade alegre de uma criança que espera por um passeio ou por um saco de pipoca. Passo os dias assim, nessa expectativa pelo óbvio que ninguém vê. As músicas tocadas embalam meus calafrios no estômago.
Se pudesse, diria ter arranjado a inspiração, como se fosse aquela musa do poeta. Temo a censura. E de onde evoco tanta beleza, se hoje, olhando naqueles olhos e rosto tão de perto talvez nem fossem tanto? Mas são tão belos. Pergunto-me se ninguém mais vê. Tão belos. Acho, as vezes, que aquela beleza foi feita sob encomenda pra mim.
Aonde fui buscar tanto encanto para um só rosto entre tantos?
Cruzo os dedos para que fique ao meu lado e não ache graça neles. Mas não consigo ser divertida ou coisa alguma. Perco-me. Fico sem palavras, sem saber por onde começar. Forjo uma naturalidade que não é minha, até minha voz muda sem meu comando.
Mas quando conseguimos uma conversa, uns risos, dessas coisas sem pretensão ou nervosismo, fica tudo tão bom e mais bonito - faz-se festa dentro de mim.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Contentamento

A presença
mais carregada de festejo
e alegria.
Se somente a companhia
é carrega
de tantos festejos
e de tantas alegrias
Imagine só
o que não são
Os risos –
festas prontas,
As conversas –
diálogos desejáveis
de serem ouvidos,
Os abraços –
ternura infinita,
E toda a intimidade –
Ah!
Uma delícia.

Ao menos sei ou quero
dizer porque é tão bom:

Ai, que saudade dos seus dias!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sua graça

A sua entrada
iluminou
todo esse lugar
Onde antes
Tudo era pálido
e sem graça
A sua graça
Trouxe beleza
Genuína
e encantadora
A morenice arrebatadora
que só sua
áurea de encanto
pode trazer.

Quase me esqueço
de cada traço
de cada trejeito
que ainda
Nem decorei.

Estranha mania
minha essa
a de colocar
sua pele de sol
Num pedestal.

Quase me esqueço
que de teu
Guardo apenas
poucas palavras
trocadas
E umas imagens
congeladas.

sábado, 22 de maio de 2010

-

Não tenho nada a dizer.

O vestígio de angústia
que ainda habita em mim
tem a voz baixa
Sem força suficiente
para se fazer entender.

Minha cabeça parece vazia –
eu sei, ela não está
Nem quer.

Mas os pensamentos
vêm
vão
sem o menor compromisso
de serem meus.
Chegam dando rasantes,
pousam,
ganham abrigo,
se vão.

As vezes voltam
Outras nem se fazem lembrar.
Mudam-se com desapego
Acho que não têm endereço fixo.

Alguns
são bons conselheiros,
Outros
não passam de companhias
indesejáveis.

Tem horas
que tudo que existe
sou eu.
O mundo lá fora,
eu espero,
toma conta de mim –
ou não,
sabe lá o destino.

Não percebo ninguém,
nada.
Sons passam distantes.
Eu passo distante.
Sorrio para o nada,
vidro os olhos em alguém –
nem reparo no que faço.

Alguém me reparou.
Eu não vi.

E o tempo voa,
não pensa em parar pra eu pensar
em paz.
O tempo vai embora
e não pensa em voltar
atrás.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Versinhos de um bobo

Eu gosto de andar
e olhar
pra você andando
e sorrindo
do meu lado.

Eu gosto de chegar lá
e ver
Seu sorriso farto e fácil
notando meu novo penteado.

Eu gosto de reparar
e ver
Que você leva a morenice
e o encanto
Lado a lado.

Eu gosto de dançar
os olhos em você
e vislumbrar
Em seus olhos
a inocência
quase sem nenhum
pecado.

Eu não gosto de pensar
E entender:
Mal te conheço
E já estou tão encantado.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A noite vai (Reeditado)

A noite vai.
O dia vem
E traz
A paz
que a noite leva.

O dia vem
E traz
A luz
Que a noite leva.

O dia vem
E traz
O som
Que a noite leva.

O dia vem
E esquece
A fé
Que a noite traz
E se desfaz
Na promessa
De medo nunca mais.

domingo, 25 de abril de 2010

Poema gripado

Queimo em chamas invisíveis,
Retorço-me
Sem conseguir evitar o movimento.

Sigo cada hora um:
Não tenho itinerário certo.
Consolo-me da ausência de cuidados excessivos.

Mal posso dançar.
Meu corpo parece querer deitar em qualquer chão,
busca o conforto que essa sensação me tira.
Tomo um comprimido –

minha temperatura parece abaixar
e (quase) consigo parar de emitir gemidos.
Me resta o muco-meleca
escorrendo-me pelo nariz.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A bunda que engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.




Carlos Drummond de Andrade

O amor natural, 1930




Achei engraçado quando li, resolvi publicá-lo aqui. haha

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Alegria

Há muito
não sentia
o sabor
daquele vento de alegria.
Dentro de si
Fez-se sintonia
E o que esquecera
A alegria daquela ventania.

Palavra e presença
De quem já esquecera como era amar
Provocaram a quase epifania.

Riu do próprio riso –

Há muito
não sabia
O que era rir
Da própria alegria.

Depois do vento
a calmaria
que logo dava lugar
À brisa daquela alegria.