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segunda-feira, 28 de julho de 2014

inevitável

guardo essa cena: você no topo da escada
gente ao redor conversa e algazarra
você, só, no topo da escada 
olhava sorria nada dizia.
bem ali eu te escolhi:
pela quarta vez.

sábado, 17 de maio de 2014

Curvatura

O contorno que ganha ante mim varia
Movo meus dias sob a tua égide
Objeto, musa, estima –
Carícia, vislumbre, contentamento
Evoco chuva, realço flores, vibro com gentileza miúda

Todo detalhe só brilha se passa por ti
Toda companhia só é se vieres primeiro
Todo domingo só emerge se a semana nos absolveu em conjunto.
Toda dor só cessa se sabes
Todo amor só vale se tocas

Debaixo das palmeiras, no terceiro degrau da escada
Ilha, vento, varanda, sacada
Rua distraída movimentada
Teu lado uma enseada.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

interruptor

é bonito quando você pisca,
disse na hora mesma em que roubou toda a minha poesia
com sua boca de amora.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Antiga Historieta

Antes de te avistar, avistei teu reino. Tão, tão distante me parecia, intangível sob o céu azul. Me aprumei, tornei-me cúmplice da brisa que o preenchia, segui. “Ela está aí se o reino a guarda”, pensei. Passei tempos a rodear teus encalços, teus giros, teus esconderijos. E finalmente pus-me de pé ao teu lado. Que suspiro, que cena, que encruzilhada. Incapaz de arredar, prossegui. Tu, em teu próprio reino, acolhia este cavalheiro, vindo a galope, triste, a esperança a bater no peito, o sobressalto à tua aparição. Incansável, quase festejante, eu acompanhava-te por nossos arredores. Se não estavas, eu perguntava por ti. Estando, eu a retinha o máximo de que era capaz. Ah! eu renunciei aos outros, eu reneguei às outras vozes para estar somente contigo e escutar apenas o que dizias - não foi uma escolha, era um imperativo. Se, por acaso, um outro viesse a ti, eu me calava em meu canto, a observar teu sorriso radioso que não era para mim. As vezes eu esperava-te voltar, as vezes dava as costas e ia-me, incapaz de maior tolerância.

Quase enraivecido, eu andava para longe, decidido: me dedicarei menos a ela, serei menos entusiasta dela, me repartirei aos outros e logo ela já não me tomará tanto, e logo eu serei mais... livre. Mas era ouvir-te chamar para o meu ímpeto mudar de figura. Eu olhava aqueles teus olhos de negro encanto, aquela tua boca pronunciada, teu sorriso luminoso, teus cabelos negros, soltos, tua pele morena... Eu queria-te por perto e tanto, a raiva que eu sentia caía lá para o fundo de mim e, momentaneamente, eu me perdia dela, porque havia encontrado a tua luz.

Passado um tempo, eu já não sabia reconhecer o que tínhamos. Duvidava, precisava que provasses, que me aprovasses, eu precisava que dissesses constantemente, e se repetisse. Eu estava absorvido pelo medo de perder-te. Isto era tudo. Calado. O silêncio quase sufocou o meu amor. Andei perdido por um tempo. Vivia dubiamente na fugidia busca de ti: ao encontrar-te, eu precisava me afastar; afastado, eu só te clamava. Eras a mesma, mas eu não conseguia ver.

Passei um longo intervalo precisando dizer-te muitas coisas. Teu reino estava mais distante do que nunca. Passei um longo intervalo em silêncio porque o que eu queria dizer não me saía. Decidi que bastava do afastamento, que tanto mais eu me impedia dos teus encontros, mais viva te tornava em minha mente. Baixei a guarda, exceto pelo silêncio que não arredava, e me aproximei. Tornei a andar ao lado teu, tornei a te encarar nos olhos e de perto. Embora aquele silêncio não me saísse, eu te acompanhava. Ficamos muito a sós num dia, mútuos. Mesmo em silêncio, me bastavas. Ali eu soube que queria falar, que eu saberia dizer. Anunciei que o faria e por um tempo ficamos à espera. Eu procurava as palavras, eu festejava silenciosamente porque finalmente diria. Tu me observavas. Eu observava o teto e meus próprios pensamentos. Abri a boca e disse quase tudo: o medo tanto de perder-te, que eu te gostava muito. O meu... Ciúme. Tu me escutando, quieta, como se não estivesse ali. Depois que eu disse quase tudo, pegaste minhas mãos. Estudou-as como se delas pudesse surgir o que ainda não fora dito. Disseste que gostavas delas, das minhas mãos, tais como eram. Que deixava pra eles, os outros, o que restava de si, e que eram minhas as tuas atenções. Eu ouvi-te, na hora eu soube, eu acreditei, fui às alturas e voltei. Ficamos com as mãos unidas em silêncio. Eu sabia, tu sabias. Nos pertencíamos.


Depois daquele dia olhávamo-nos diferente. Com mais atenção, e também com certo constrangimento, talvez um pouco mais de respeito. E uma afeição envergonhada. Eu fora descoberto – por ti. Parecíamos encabulados disto. Eu te sabia, nada me abalaria. Engano. Aos poucos retomei meu silêncio e minha insegurança. Tu pareceste retomar a intrigante indiferença. Eu já não sabia de ti, e me desvencilhava o quanto podia. Já não parecias tão minha. Céus. Aquilo nunca teria fim? Aquele silêncio? Aquela dúvida? Céus, isto não terá fim? Ainda agora eu sinto uma saudade tremenda de ti, e um medo tremendo de terem te tomado de mim. Parece que estou fadado a isto. Peço que perdoe a nós: eu, meu silêncio, meu amor desordenado. Desde que avistei teu reino e te alcancei, tudo ganhou um ar renovado, mais doce e perfumado, mais intrigante e bonito. E quando me afasto, resta a ausência, e nesta ausência o que há é a falta. Uma falta que movimenta e paralisa os dias conforme intensifica ou parece amenizar-se, e reveste as horas todas dum cinza rosado e fluido, etérea coisa doce e dolorosa, como a lembrança de ti.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

confidencial

nos poemas em que mais te amo
naqueles em que transbordas e transbordo
nesses
ainda não puseste os olhos

sábado, 9 de novembro de 2013

Eis como me sinto

Estou sem saber-te. O som do riso, o som da boca, o cheiro da pele, o toque dos dedos, a luz dos olhos vagos e negros, os cabelos negros. Estou sem saber-te e já perdi as contas de contar-te dos dias todos que tivemos e cessaram por um tanto de tempo que não sei mais deduzir. Pois é como me sinto. Sem ti. Estou sem ti há tempos, estou sem ti faz dias. Tomaste tua condução ontem (ou anteontem?), e disseste: até quarta. Desde lá, não nos falamos porque decretaste o nosso silêncio. Então é só como me sinto, em silêncio com o teu.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

esquadrinhando

segundo, segundo, segundo.
tu te movimentas
lenta
e eu apreendo teus movimentos
todos
um segundo
após o outro.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

o meu amor está aqui

suas pernas, as pernas do
meu amor, pendem soltas,
sem saber-me. as mãos do
meu amor aparam seus
próprios cabelos, negros. 
o meu amor está aqui,
risonho e longínquo,
guardado no peito.