-Oi.
-Oi.
-Hum...
-Vamos dar uma volta.
-Tá. Aonde?
-Ali na frente.
-E podemos sentar.
-É.
-Gosta de quê?
-De flores. E você?
-Hum... De chocolate.
-De outono.
-De bola.
-De gatos.
-De cachorro, do meu.
-Suas mãos são magras.
-É.
-Ah, de livros.
-Eu também.
-De chuva.
-As vezes.
-Você faz graça.
-Pode ser.
-Eu gosto de rir.
-E eu. Você faz graça também.
-As vezes é de propósito.
-Eu também.
-Cuida?
-Te cuido sim.
-Ainda bem.
-Ainda bem.
-Tem tempo?
-O mesmo que o seu.
-Tem saudade?
-Maior.
-Que a minha?
-Talvez.
-Eu gosto.
-Eu também, de você.
-Ainda bem.
-Que bom.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
sábado, 30 de junho de 2012
A felicidade me sorri
Já não tenho versos
nem deles careço:
A felicidade me sorri
e dela me compadeço.
sábado, 23 de junho de 2012
Jorge
A hora já não era a mesma, perdera aquela urgência de antes,
o inadiável ficou para nunca mais. Jorge
abaixou-se para tirar os sapatos e as meias. Estirou-se no sofá. Escorregou por
ele. Fechou os olhos. Daí passaram-se dias, meses, anos. A vida deixou de ter
importância, a vida deixara de ser, Jorge era um homem e o sofá o que
importava.
Abriu os olhos, tudo era igual, as coisas as mesmas de trinta segundos atrás, quando fechara os olhos para esquecer que estava ali. Não havia se passado nem um minuto, e Jorge já sentia o peso do mundo dentro de si e as rugas cavando o entorno de seus opacos olhos. O tempo estava escuro, o relógio estava parado.
Jorge não sabia das horas, mas não era cedo, e a urgência escapara-lhe pelas mãos. Por onde havia andado, com quem haveria de ter estado? Não tinha lembranças, a memória era turva, viver parecia que não lhe acontecera. Jorge queria esquecer. Esquecer o quê? A vida que não fora, os amigos que não tivera, os dias que passaram iguais, ele que estava sempre o mesmo, sempre o Jorge, aquele Jorge, o irremediável Jorge, o que sempre estaria ali e do mesmo jeito, não importando quando fosse. Jorge perdera a urgência, isso já está claro. Mas será que algum dia teve pressa, será que algum dia teve por quê?
Jorge estava cansado, a barba já não era feita há dias, os olhos impregnados pela fadiga. Jorge precisava fugir. De onde, para onde, de quê? Tinha medo. Então fechou os olhos. Preciso fugir, pensou. Mas sentia tanto medo que começou a se encolher no sofá, e colocou os braços sobre a cabeça, precisava se proteger (de quê mesmo?). Então começou a chorar, chorar, chorar. Levantou, abriu os olhos. Quanto tempo sucedera? Não sabia, talvez dez minutos, três horas, um dia inteiro. Jorge queria fugir, mas sentou-se no chão. Ficou ali, as horas passaram, Jorge levantou-se e parou de chorar quando o sol ameaçou com sua luz. Daí tomou banho e vestiu-se, engoliu um biscoito, foi trabalhar. Deixava-se levar. Não sabia para onde correr de tanto vazio.
Abriu os olhos, tudo era igual, as coisas as mesmas de trinta segundos atrás, quando fechara os olhos para esquecer que estava ali. Não havia se passado nem um minuto, e Jorge já sentia o peso do mundo dentro de si e as rugas cavando o entorno de seus opacos olhos. O tempo estava escuro, o relógio estava parado.
Jorge não sabia das horas, mas não era cedo, e a urgência escapara-lhe pelas mãos. Por onde havia andado, com quem haveria de ter estado? Não tinha lembranças, a memória era turva, viver parecia que não lhe acontecera. Jorge queria esquecer. Esquecer o quê? A vida que não fora, os amigos que não tivera, os dias que passaram iguais, ele que estava sempre o mesmo, sempre o Jorge, aquele Jorge, o irremediável Jorge, o que sempre estaria ali e do mesmo jeito, não importando quando fosse. Jorge perdera a urgência, isso já está claro. Mas será que algum dia teve pressa, será que algum dia teve por quê?
Jorge estava cansado, a barba já não era feita há dias, os olhos impregnados pela fadiga. Jorge precisava fugir. De onde, para onde, de quê? Tinha medo. Então fechou os olhos. Preciso fugir, pensou. Mas sentia tanto medo que começou a se encolher no sofá, e colocou os braços sobre a cabeça, precisava se proteger (de quê mesmo?). Então começou a chorar, chorar, chorar. Levantou, abriu os olhos. Quanto tempo sucedera? Não sabia, talvez dez minutos, três horas, um dia inteiro. Jorge queria fugir, mas sentou-se no chão. Ficou ali, as horas passaram, Jorge levantou-se e parou de chorar quando o sol ameaçou com sua luz. Daí tomou banho e vestiu-se, engoliu um biscoito, foi trabalhar. Deixava-se levar. Não sabia para onde correr de tanto vazio.
domingo, 17 de junho de 2012
Gertrudes
Se Gertrudes ousasse erguer os olhos pra mim, sorrindo, talvez
eu me visse impelida a fitá-la indiferente. Se Gertrudes viesse rodear-me num
abraço, talvez eu a empurrasse para longe. Se Gertrudes começasse a despejar
sua vida em confissão, talvez eu de súbito me retirasse. Se Gertrudes viesse
perguntar o que me acontecia, talvez eu só conseguisse chorar, e talvez o choro
fosse só de raiva. Se Gertrudes perguntasse a respeito do amor, eu diria que
talvez ele nem existisse mais.
sábado, 9 de junho de 2012
Encantado
És de um lugar que desconheço
Teu reino
é essa tua alma gentil
é teu coração
O teu reino não é daqui
É onde haja sol,
Chuva e outono
É onde não precisas de agasalhos.
Teu reino é posto em água cristalina
e pedrinhas redondas.
É de picolé
e passeio de fim de tarde
De fotografias róseas,
palmeiras infinitas
e árvores frondosas.
Teu reino
é essa tua alma gentil
é tudo infinito
Onde o mal não tem vez.
Me traz contigo,
E me traz esse teu reino
encantado
Que não sei onde fica
Mas que está em ti
E
em
tudo
o
que
que
fazes.
sábado, 2 de junho de 2012
Quimera
Que perigo eu lendo-te, só, cá no meu recanto. Que
perigo para nós. Que perigo minha imaginação trazendo-te para tão perto assim.
Não fales tão entregue, que tenho vontade de recolher-te. Não fales tão
simples, que tenho vontade de acomodar-te. Não fales tão suscetível, que tenho
vontade de proteger-te de todo o mal.
É noite, e a música tão melódica que sinto saudades. Já é
noite e nós mal amanhecemos. Ainda
é noite, eu não tenho sono, quanto a ti, não sei. Mas ainda é noite e eu quero
um dia mais, e logo. O sabor tão recente da companhia nova e boa.
Joguemos ao vento algumas flores, roxas e amarelas. O que
isto diz para nós? Onde está a beleza nisto tudo? Em nós. Procuremos um lugar
vazio e fresco para sentarmo-nos a sós e esperar o tempo, a falar, a calar, a
pausar. Há beleza nisto? Há. Quem passa e nos percebe ali sabe e consente.
Talvez até esteja frio, talvez o tempo esteja cinza – e não há nisto metáfora, falo
do tempo mesmo, do céu, do ar. Há beleza nisto. Aquiescemos.
Estamos passando. Ruflam os tamborins, os dedos, os tambores, os corações, as
asas do pássaro, as bandeiras. Estamos passando e nossos olhos sorriem. Não
toco-te com as mãos, mas meus cabelos esbarram no teu ombro. Pareando-te, olho-te
de onde estou: que bonito. Que perigo.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Aconchego
Que agora
me deu saudade
de ter
o que a gente
tem.
Vem para
o lado meu,
amor.
Ou, se
me chamares,
eu vou.
domingo, 20 de maio de 2012
Viço
Eu poderia escrever um poema hoje, passar o dia a cantar e a
tamborilar com os dedos. Eu poderia correr sob a luz do sol, com os cabelos
soltos, e mergulhar no mar gelado. Eu poderia deitar numa rede entre as
palmeiras frescas, sorrir ininterruptamente e sozinha por hora a fio. Poderia
andarilhar entre as crianças serelepes e conversar sobre tudo quanto elas
comandassem, porque conversar com crianças é tão bom. Poderia dar um banho no
meu cachorro e depois ficarmos os dois encharcados, e corrermos ao vento até
nos secar. Eu poderia fazer pedidos promissores e intangíveis, e crê-los mais
do que seria permitido. E tirar fotografias de sorrisos que desconheço ou não, só
para sentir a alegria deles, com eles e tê-la congelada do tempo. Poderia tomar
um, dois, três picolés seguidos e beber água. Depois andar, andar, andar, e
morrer de rir.
sábado, 5 de maio de 2012
Expectativa
Eu? Não guardo muito, quase nada ou nada. Mas tu, que
riqueza! Eu não, não sou tanto mais ou menos do que vês. Mas tu, ah, quanta
riqueza. Guardas um mundo inteiro no peito, e outro na alma. Tens olhos de
sereno e tufão. Quanto aos meus, ficam a espreitar-te, mansos, modestos,
embevecidos.
Ah, quanta riqueza, meu Deus. Gostas de flores e livros, bichos e
música, e tens um belo sorriso. Um riso dourado e cheio. Tu, quando sorris,
resplandeces. Meus olhos embevecidos saúdam-te a uma distância sôfrega, e
marejam a contragosto.
Mistura-te à noite, deixa que ela te envolva com sua pele de fria luz, sente o arrepio: o nome disso é esperança e saudade, só agora vim saber.
Mistura-te à noite, deixa que ela te envolva com sua pele de fria luz, sente o arrepio: o nome disso é esperança e saudade, só agora vim saber.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Bruma
Sinuosa forma branca
sobre o que há de prado
e folha verdejante.
Vê: há quem chame de arte,
Amor.
Sobe o morro.
Estás entre as nuvens
e teus cabelos mais bonitos
Impossível. Pega-os, toca-os –
os cabelos e as nuvens.
Sente o que há de pluma e de alma,
o que há de luminoso e alto,
teus cabelos tocando o céu,
teus cabelos soltos, finalmente.
Sente o frio,
Respira, vira pássaro licencioso,
Toca a luz de novo com os cabelos soltos
Não perde o costume,
Relembra a liberdade sempre
E mais uma vez.
A tocaia está armada,
Ninguém está impune,
Amor.
Mas o céu está aí,
As flores, orvalhadas,
o ar, frio.
Vê, Amor
O dia te inspira
e tu o aspira e expira
Vê, Amor, está tudo nublado
Mas é tão bonito.
Não consegues nem fechar os olhos
Nem conter a respiração
Tens fome de tudo quanto te rodeie.
Abre a cortina do auditório majestoso
e te infiltra nele.
Te infiltra no que é teu, por direito
ou não.
Sente a liberdade sempre
E mais uma vez.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Distração
Dói uma dor de alegria em mim,
e tenho vontade de chorar.
Choro do riso contido
Rio do choro que resisto derramar.
Não tenho fome,
Não tenho sede,
Não tenho quase nada
quando me falta a tua presença.
Sofro com ânsias de ausência
E de vez em quando
Temo
Porque te amo
Já tão cedo
E sorrio toda hora lembrando de ti.
e tenho vontade de chorar.
Choro do riso contido
Rio do choro que resisto derramar.
Não tenho fome,
Não tenho sede,
Não tenho quase nada
quando me falta a tua presença.
Sofro com ânsias de ausência
E de vez em quando
Temo
Porque te amo
Já tão cedo
E sorrio toda hora lembrando de ti.
sexta-feira, 30 de março de 2012
Uno
Calma, Coração, já se arrebatou, já sentiu, foi. Calma, que não tenho métodos pra tanto desassossego, nem estômago pra tanto frio inoportuno. Coração, trate de se emendar, sei que isso é amar demais, mas você já sentiu que ama firme e forte, agora abranda os sacolejos, que eu careço de descanso. Não, não me venha com esses sobressaltos, com essas truculências, que assim você acaba escapando ao peito frágil. Coração, você ama com as forças que não tem, e me leva junto, eu não tenho escolha. Coração, você tem uma queda pela morenice e o sol na pele, nos olhos, no riso, e pela sutileza da alma. Nisso tenho de convir, por estes somos dois entusiastas.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Querida Queridinha
Dali ao último suspiro faltou pouco. Já não cantava, já não balançava a cabecinha, e os olhinhos de pássaro ficavam mais fechados que abertos, fracos, estava fraca. Até parecer doente, faltou pouco, calara, parara. Precisava de descanso e sabia, nós suspeitávamos. Estava velha e não sabia, nós suspeitávamos. Foram lá tentar alguma animação, ela ralhou uma vez e calou, tentaram que dançasse como de costume, mexendo a cabecinha pra cima e pra baixo, ela olhava resignada: precisava descansar. Chamaram seu preferido da casa, o que lhe arrancava as maiores cantorias e algazarras. Nenhum pio. Mas aproximou seu corpinho de pássaro do rosto do homem, o pai da família, olhou, olhou, olhou. Tornou a fechar os olhinhos, no outro canto do poleiro, precisava descansar. Compraram jiló, que ela adorava. Encheram-lhe a gaiola, tentaram uma festa, uns assobios. Ela cutucou com o bico, comeu umas sementes, muito pouco. Fechou os olhinhos, deixou os tantos de jiló lá, nem cantou, precisava descansar. O dia escureceu, fez-se noite. O pássaro no canto do poleiro precisava descansar e, se não tivesse passado o dia assim, achariam normal. No outro dia, ela já partira, deixou-se no fundo da gaiola e alçou vôo para além do céu. A mãe chorou, também as filhas. Prepararam o que havia de ser preparado, ocorreu sob uma árvore, jogaram algum alpiste, depositaram ali uma flor, marcaram o lugar com uma pedra. A gaiola vazia era só silêncio, Queridinha voou.
8/1/2012
8/1/2012
domingo, 23 de outubro de 2011
Dia claro
Um dia ela aprende que o corpo é todo coração, ela vê que o corpo é copo de cristal que guarda água. Um dia ela vê que é manteiga derretida. Um dia ela senta e chora, e pára para chorar, e se escuta música, chora, e se lê poesia, chora. Um dia, quem sabe um dia. Um dia ela aprende a lidar com os cabelos e deixa-os serem sem nó, e pára de amarrá-los sem dó. Um dia ela aprende que sorrir nem é obrigação e começa a rir mesmo à toa. Quem sabe um dia ela não saia por aí se sentindo livre? Um dia, quem sabe, iria ser bom.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
O velho pássaro
Vê, passarinho
O mundo insiste lá
Fora da tua gaiola.
Olha a copa da árvore
que nunca sonhaste pousar
Escuta o vento
que balança as folhas.
Sente,
Sente esse vento
em tuas asas,
passarinho,
O vento
que eriça tuas ralas penas.
Guarda teu canto -
Não te canses agora
que já é tarde
para pensar
em liberdade
Mas olha este céu
acima da tua gaiola,
Vasto e azul,
O céu que tua vida
empoleirada
ignorou.
Não te assustes,
não abaixes o bico
tão amedrontado
O céu esteve aí
todo o tempo.
Escutas?
Não inclines a cabeça
duvidoso
Pois são outros como tu
que cantam longe
Lá fora.
Aproveita o sol
e o vento
Isso, pode fechar
teus olhinhos de pássaro
É chegada a tua hora.
Vê o mundo
Sente a liberdade
Toma-a como tua
Dá teu derradeiro canto
Eterniza tua vida
nesse instante de glória
E suspira leve
já no fundo
de tua gaiola
Antes de atinar
que te privaram
o vôo.
O mundo insiste lá
Fora da tua gaiola.
Olha a copa da árvore
que nunca sonhaste pousar
Escuta o vento
que balança as folhas.
Sente,
Sente esse vento
em tuas asas,
passarinho,
O vento
que eriça tuas ralas penas.
Guarda teu canto -
Não te canses agora
que já é tarde
para pensar
em liberdade
Mas olha este céu
acima da tua gaiola,
Vasto e azul,
O céu que tua vida
empoleirada
ignorou.
Não te assustes,
não abaixes o bico
tão amedrontado
O céu esteve aí
todo o tempo.
Escutas?
Não inclines a cabeça
duvidoso
Pois são outros como tu
que cantam longe
Lá fora.
Aproveita o sol
e o vento
Isso, pode fechar
teus olhinhos de pássaro
É chegada a tua hora.
Vê o mundo
Sente a liberdade
Toma-a como tua
Dá teu derradeiro canto
Eterniza tua vida
nesse instante de glória
E suspira leve
já no fundo
de tua gaiola
Antes de atinar
que te privaram
o vôo.
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