domingo, 1 de setembro de 2013
Gravitação
Vejo-te ao longe. Estás a minha espera. Eu
tremo. Faz tempo que perdi as palavras e prosseguimos em silêncio. Eu me
aproximo a cada passo, e tremo um pouco menos, porque me obrigo a acostumar-me que estar ao teu lado é preciso.
Ao contrário, estando longe, eu sou triste, triste. E não vejo mais
ninguém.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Branco
A dor cobriu
meu peito
mais que
tudo,
em meu peito
mudo,
dorme,
trêmulo,
um coração.
Insígnias de
manhãs dobram
no peitoril
da janela.
Numa outra,
branca franela
golpeia o
rosto sorridente duma criança.
A lutar, a
ter esperança,
caminhamos
ao lado dele.
Hoje acordei
mais cedo.
Ontem, pela
madrugada,
eu dormia quando despertei
distraída
me arregalei
olhos em
pesadelo.
Agora ele
dorme, branco.
Respira
trêmulo, brando.
Os outros
ressonam.
Eu, nada.
Nem ninguém.
Pela janela
esperançosa, o vento.
Pela reza,
que quer crer e não sabe como,
a voz da
solitária prece esbarra nas tantas outras que não,
que nunca se
anunciam.
Ele espera
por ela desde que nasceu, também nós e tudo que tem vida.
Mas ninguém
se acostuma.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Máquina de Escrever
bruta e delicada
maquina de escrever
eu bato os dedos
delicados
bato
tec
bato bato
tec tec,,
Bruta máquina de escrever,
um deslizar e paf!
plim
Puft.
deu defeito.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Ao Ig
Tão pequeno e macio, branco e preguiçoso, tão filhote ele chegou para nós numa caixa de papelão. Já era nosso. Ele sabia, talvez nós (eu tinha certeza!), só meu pai não queria aceitar o que foi docilmente, docemente levado a crer: ele era nosso. ‘Ig’, vai ser o nome dele. Tão filhote, ele nos batizou.
O Ig era tão cachorro que as vezes não dava vontade de sair de perto dele. Aquele bonito, aquele safado. Não há uma forma de explicar. Estar na rua e saber que ele estaria em casa era quase uma gratificação. Ele era um prêmio. Ele foi um prêmio. Ele é.
Aquela cara levada, aquele talento pra algazarra. Ele sabia
que era irresistível. Vinha, todo bonito, todo faceiro, com aquele rabo
festelento. Aqueles olhos... Aqueles olhos irresistíveis. Se achegava,
deitava... aquela pancinha rosa peludinha virada pra cima. Meu cachorro agora é
nuvem de algodão. Que saudade dele aqui.
Ig era o elo com o chão. É estranho dizer, como se fosse o
elo com as coisas mais originais e básicas, mais pueris. O amor sem muros, a
ternura macia e branda, quente, branca e rosada. Ig era isto: o sentar-se no
chão de pijamas. Tão crianças, Ig e eu. Parece que faz tanto tempo.
Que saudade. Nada do que eu diga parece conseguir transcrever
esses 13 anos com o Ig. Tão incrível, tão lindo, tão nosso. Que saudade.
Aquele bonito. Ig nos batizou.
14/6/2013
14/6/2013
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Je suis perdue
Se você for, por favor, demora.
Se você for, por favor, não vá.
Que voy a hacer? Je ne sais pas.
Se você for, por favor, não vá.
Que voy a hacer? Je ne sais pas.
sábado, 25 de maio de 2013
Cai aqui
Por causa de você me sinto macia. Por causa de você eu
deixei as horas pra lá. Por causa de você eu flutuo entre os dias. Por causa de
você eu me esqueço do resto. Por causa de você tudo é o resto. Por causa de
você eu manifesto que as sextas-feiras não deveriam existir. Por causa de você
eu olho pra cima e peço tempo. Por causa de você eu desandei a me
esquecer. Por causa de você estou aqui e me sinto tão macia.
domingo, 19 de maio de 2013
Amor
Beijou, sorriu, seguiu.
“Meu amor”, diziam reciprocamente.
Miravam-se em flerte, abismados.
O amor fez isso com eles:
Destacou-os, unívocos, da multidão.
E conversavam de modo que algo pudesse sempre acontecer.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
silêncios
eu não escrevi seu nome na areia
eu não te enviei cartas de amor
eu nao gritei de dor no fim do dia
eu nao decretei feriados
eu não parei a aula
eu não fiz buquês de flores de jardim
eu não segurei com força as suas mãos
eu não impedi o trânsito
eu não
eu não te dei poema algum
eu não pus seu retrato na estante
eu não falei de ti por aí
eu não chorei no cinema assistindo a romances
eu não guardo objetos que me remetam a você
eu não te enviei cartas de amor
eu nao gritei de dor no fim do dia
eu nao decretei feriados
eu não parei a aula
eu não fiz buquês de flores de jardim
eu não segurei com força as suas mãos
eu não impedi o trânsito
eu não
eu faço poemas para compor os meus silêncios
eu só uso a palavra para compor os meus (...)
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Borboleteando
No caminho por onde passo há múltiplas flores.
Acaso eu te colhesse
uma por dia durante um mês,
restariam ainda outras trinta de aparência diversa e
intocáveis.
Umas que deixei passar propositalmente,
outras tantas que nem
vi.
sábado, 23 de março de 2013
Querena
Tudo o que sei está refletido nesses meus olhos entregues. Velejantes,
meus olhos são banhados pelas tuas marés. Marejantes, são acariciados pela tua
brisa. Não vês? Não veem? Meus olhos dizem tudo, entregues. Meus olhos seguem
tua direção, vela-guia desses ventos insones. Entregues, meus olhos solitários
vagueiam por um mar sem fim, à tua espreita. Mas não vês. Não veem. Melhor assim.
Navegam solitários e secretos, os meus olhos, quase a salvos de tudo.
quinta-feira, 14 de março de 2013
Bagatela
Eu não tenho nada pra ti, nada.
Só esse amor imenso cá
dentro.
E um medo danado
dele
não te servir.
Só esse amor imenso cá
dentro.
E um medo danado
dele
não te servir.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Abrupto
Bruno, antes de sair, deixou um bilhete. Não tinha um amor,
diziam, Bruno não sabia chorar, amar muito menos. Era o que diziam. Mas
escreveu um bilhete sem remetente nem destinatário e deixou sobre a mesa da
sala. Calçou seus chinelos, iria à praia, não se sabe, talvez à padaria. Bruno
passou uma mão pelos cabelos e outra nas chaves e voltou à mesa do bilhete.
Releu. Amassou o papel branco rabiscado, colocou no bolso, não valia à pena.
Daí continuou seu dia, saiu de chinelos e semi penteado, talvez tenha ido à
praia, talvez só à padaria ou a nenhuma delas, e o bilhete em seu bolso
enquanto andava por aí. Então alguém o achou pelo chão, abaixou-se para pegar e
leu. Achou vulgar, tolo, mas guardou no próprio bolso, depois o colocou na mesa
de sua própria sala. Não demorou muito para que um outro que lá habitasse lesse,
não se sabe o que lhe pareceu, se bom ou ruim, só que no fim da leitura deu um
sorriso de canto, que poderia ser de concordância, talvez. Ou não:
“Daí alguém pode imaginar que eu esteja me iludindo. Talvez
eu esteja. E ainda podem dizer que eu só sei amar assim, de súbito, logo,
enciumado, quase obsessivo, que não sei amar. Talvez tenham razão. O meu amor
chega abrupto com o pé na porta, senta, cruza os braços, fecha a cara. Esse é o meu
amor, o meu amor só soube amar assim toda a vida. Fecha a cara de braços
cruzados, coitado, de ciúme e medo, esperando um afago pra poder sorrir. O meu
amor é um tolo mesmo, ama desesperado e quieto, choroso de saudade e fingindo
sempre não existir, que é simpatia passageira”
sexta-feira, 8 de março de 2013
O auge do meu dia
Tem aquela hora que eu paro um pouco só pra sentir
saudade. Se eu estiver sozinha, choro um pouquinho. Se não, apenas faço
silêncio, olho pra outro canto. Nessas horas, que costumam ser quando vem vindo
o fim da tarde, e o vento é fresco se se está à sombra, eu paro num canto só
pra sentir sua saudade. Lembro daquele dia, de um outro, talvez de um que
esteja bem lá atrás. E penso na distância, em como seria se estivesse
aqui. Imagino um reencontro querendo que seja perfeito - nessa parte do
pensamento tenho medo, porque quero que seja perfeito, e quase nunca é. Imagino que nos sentamos num café ao ar livre para ler e conversar, comer uma boa torta, tomar
um café com creme. E a certa altura fazer silêncio para
escrever em nossos cadernos. Depois sair para caminhar e conversar mais um
pouco, sentindo a brisa, tendo as estrelas logo acima. Talvez até sentássemos
n'algum banco, ou não, tanto faria. Mas estaria comigo, apenas comigo, bastaria.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Nuvem
Ela tem dias de chorar sem ninguém saber porquê. De mansinho
ela sai, baixa os olhos, e quietinha chora como se não estivesse chorando. Se
alguém por acaso vê, se por acaso percebem, ela não diz nada, ela diz que é
mesmo nada. Pede que se afastem, que não façam perguntas, que daqui a pouco já
passa. Seca os olhos, se recompõe, e
fica até difícil perceber o que passou. Então ela sorri, diz que acabou, que já
até esqueceu. É até bonito.
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