sábado, 9 de novembro de 2013
Eis como me sinto
Estou sem saber-te. O som do riso, o som da boca, o cheiro da
pele, o toque dos dedos, a luz dos olhos vagos e negros, os cabelos negros.
Estou sem saber-te e já perdi as contas de contar-te dos dias todos que tivemos
e cessaram por um tanto de tempo que não sei mais deduzir. Pois é como me
sinto. Sem ti. Estou sem ti há tempos, estou sem ti faz dias. Tomaste
tua condução ontem (ou anteontem?), e disseste: até quarta. Desde lá, não nos
falamos porque decretaste o nosso silêncio. Então é só como me sinto, em
silêncio com o teu.
domingo, 27 de outubro de 2013
Fluvial
Peço
por favor
que não
creias
nas palavras
bonitas
ou feias
que eu possa
emitir.
Peço
que
desconfies,
e chegues
firme
e fundo
nas verdades
que eu teimar
não despir.
E, também,
que não tire
os créditos
todos,
os oportunos
e os tolos,
do meu louco
amor
de mentira
por ti.
Do meu louco
amor
de carícias
por ti.
Do meu louco
amor
Flutuante
Ateu
Devoto
todo teu
Que abana
falácias
e quimeras,
invernos
e primaveras
a cada
instante
que se lança
nas
correntezas
de amar
e desamar.
sábado, 5 de outubro de 2013
Meio-fio
Ali onde eles são
Sou o que sobra
No espaço que resta
Entre o não ser
E o que desprezo
Pela falta
Ou por excesso.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
esquadrinhando
segundo, segundo, segundo.
tu te movimentas
lenta
e eu apreendo teus movimentos
todos
todos
um segundo
após o outro.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
o meu amor está aqui
suas pernas, as pernas do
meu amor, pendem soltas,
sem saber-me. as mãos do
meu amor aparam seus
próprios cabelos, negros.
o meu amor está aqui,
risonho e longínquo,
guardado no peito.
domingo, 1 de setembro de 2013
Gravitação
Vejo-te ao longe. Estás a minha espera. Eu
tremo. Faz tempo que perdi as palavras e prosseguimos em silêncio. Eu me
aproximo a cada passo, e tremo um pouco menos, porque me obrigo a acostumar-me que estar ao teu lado é preciso.
Ao contrário, estando longe, eu sou triste, triste. E não vejo mais
ninguém.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Branco
A dor cobriu
meu peito
mais que
tudo,
em meu peito
mudo,
dorme,
trêmulo,
um coração.
Insígnias de
manhãs dobram
no peitoril
da janela.
Numa outra,
branca franela
golpeia o
rosto sorridente duma criança.
A lutar, a
ter esperança,
caminhamos
ao lado dele.
Hoje acordei
mais cedo.
Ontem, pela
madrugada,
eu dormia quando despertei
distraída
me arregalei
olhos em
pesadelo.
Agora ele
dorme, branco.
Respira
trêmulo, brando.
Os outros
ressonam.
Eu, nada.
Nem ninguém.
Pela janela
esperançosa, o vento.
Pela reza,
que quer crer e não sabe como,
a voz da
solitária prece esbarra nas tantas outras que não,
que nunca se
anunciam.
Ele espera
por ela desde que nasceu, também nós e tudo que tem vida.
Mas ninguém
se acostuma.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Máquina de Escrever
bruta e delicada
maquina de escrever
eu bato os dedos
delicados
bato
tec
bato bato
tec tec,,
Bruta máquina de escrever,
um deslizar e paf!
plim
Puft.
deu defeito.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Ao Ig
Tão pequeno e macio, branco e preguiçoso, tão filhote ele chegou para nós numa caixa de papelão. Já era nosso. Ele sabia, talvez nós (eu tinha certeza!), só meu pai não queria aceitar o que foi docilmente, docemente levado a crer: ele era nosso. ‘Ig’, vai ser o nome dele. Tão filhote, ele nos batizou.
O Ig era tão cachorro que as vezes não dava vontade de sair de perto dele. Aquele bonito, aquele safado. Não há uma forma de explicar. Estar na rua e saber que ele estaria em casa era quase uma gratificação. Ele era um prêmio. Ele foi um prêmio. Ele é.
Aquela cara levada, aquele talento pra algazarra. Ele sabia
que era irresistível. Vinha, todo bonito, todo faceiro, com aquele rabo
festelento. Aqueles olhos... Aqueles olhos irresistíveis. Se achegava,
deitava... aquela pancinha rosa peludinha virada pra cima. Meu cachorro agora é
nuvem de algodão. Que saudade dele aqui.
Ig era o elo com o chão. É estranho dizer, como se fosse o
elo com as coisas mais originais e básicas, mais pueris. O amor sem muros, a
ternura macia e branda, quente, branca e rosada. Ig era isto: o sentar-se no
chão de pijamas. Tão crianças, Ig e eu. Parece que faz tanto tempo.
Que saudade. Nada do que eu diga parece conseguir transcrever
esses 13 anos com o Ig. Tão incrível, tão lindo, tão nosso. Que saudade.
Aquele bonito. Ig nos batizou.
14/6/2013
14/6/2013
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Je suis perdue
Se você for, por favor, demora.
Se você for, por favor, não vá.
Que voy a hacer? Je ne sais pas.
Se você for, por favor, não vá.
Que voy a hacer? Je ne sais pas.
sábado, 25 de maio de 2013
Cai aqui
Por causa de você me sinto macia. Por causa de você eu
deixei as horas pra lá. Por causa de você eu flutuo entre os dias. Por causa de
você eu me esqueço do resto. Por causa de você tudo é o resto. Por causa de
você eu manifesto que as sextas-feiras não deveriam existir. Por causa de você
eu olho pra cima e peço tempo. Por causa de você eu desandei a me
esquecer. Por causa de você estou aqui e me sinto tão macia.
domingo, 19 de maio de 2013
Amor
Beijou, sorriu, seguiu.
“Meu amor”, diziam reciprocamente.
Miravam-se em flerte, abismados.
O amor fez isso com eles:
Destacou-os, unívocos, da multidão.
E conversavam de modo que algo pudesse sempre acontecer.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
silêncios
eu não escrevi seu nome na areia
eu não te enviei cartas de amor
eu nao gritei de dor no fim do dia
eu nao decretei feriados
eu não parei a aula
eu não fiz buquês de flores de jardim
eu não segurei com força as suas mãos
eu não impedi o trânsito
eu não
eu não te dei poema algum
eu não pus seu retrato na estante
eu não falei de ti por aí
eu não chorei no cinema assistindo a romances
eu não guardo objetos que me remetam a você
eu não te enviei cartas de amor
eu nao gritei de dor no fim do dia
eu nao decretei feriados
eu não parei a aula
eu não fiz buquês de flores de jardim
eu não segurei com força as suas mãos
eu não impedi o trânsito
eu não
eu faço poemas para compor os meus silêncios
eu só uso a palavra para compor os meus (...)
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Borboleteando
No caminho por onde passo há múltiplas flores.
Acaso eu te colhesse
uma por dia durante um mês,
restariam ainda outras trinta de aparência diversa e
intocáveis.
Umas que deixei passar propositalmente,
outras tantas que nem
vi.
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