terça-feira, 3 de setembro de 2013

o meu amor está aqui

suas pernas, as pernas do
meu amor, pendem soltas,
sem saber-me. as mãos do
meu amor aparam seus
próprios cabelos, negros. 
o meu amor está aqui,
risonho e longínquo,
guardado no peito.

domingo, 1 de setembro de 2013

Gravitação

Vejo-te ao longe. Estás a minha espera. Eu tremo. Faz tempo que perdi as palavras e prosseguimos em silêncio. Eu me aproximo a cada passo, e tremo um pouco menos, porque me obrigo a acostumar-me que estar ao teu lado é preciso. Ao contrário, estando longe, eu sou triste, triste. E não vejo mais ninguém.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Branco


A dor cobriu meu peito
mais que tudo,
em meu peito mudo,
dorme, trêmulo,
um coração.

Insígnias de manhãs dobram
no peitoril da janela.
Numa outra, branca franela
golpeia o rosto sorridente duma criança.
A lutar, a ter esperança,
caminhamos ao lado dele.

Hoje acordei mais cedo.
Ontem, pela madrugada,
eu dormia quando despertei
distraída
me arregalei
olhos em pesadelo.

Agora ele dorme, branco.
Respira trêmulo, brando.
Os outros ressonam.
Eu, nada. Nem ninguém.
Pela janela esperançosa, o vento.
Pela reza, que quer crer e não sabe como,
a voz da solitária prece esbarra nas tantas outras que não,
que nunca se anunciam.
Ele espera por ela desde que nasceu, também nós e tudo que tem vida.
Mas ninguém se acostuma.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Máquina de Escrever

bruta e delicada
maquina de escrever
eu bato os dedos
delicados
bato
tec
bato bato
tec tec,,
Bruta máquina de escrever,
um deslizar e paf!
plim
Puft.
deu defeito.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ao Ig


Tão pequeno e macio, branco e preguiçoso, tão filhote ele chegou para nós numa caixa de papelão. Já era nosso. Ele sabia, talvez nós (eu tinha certeza!), só meu pai não queria aceitar o que foi docilmente, docemente levado a crer: ele era nosso. ‘Ig’, vai ser o nome dele. Tão filhote, ele nos batizou.

O Ig era tão cachorro que as vezes não dava vontade de sair de perto dele. Aquele bonito, aquele safado. Não há uma forma de explicar. Estar na rua e saber que ele estaria em casa era quase uma gratificação. Ele era um prêmio. Ele foi um prêmio. Ele é.

Aquela cara levada, aquele talento pra algazarra. Ele sabia que era irresistível. Vinha, todo bonito, todo faceiro, com aquele rabo festelento. Aqueles olhos... Aqueles olhos irresistíveis. Se achegava, deitava... aquela pancinha rosa peludinha virada pra cima. Meu cachorro agora é nuvem de algodão. Que saudade dele aqui.

Ig era o elo com o chão. É estranho dizer, como se fosse o elo com as coisas mais originais e básicas, mais pueris. O amor sem muros, a ternura macia e branda, quente, branca e rosada. Ig era isto: o sentar-se no chão de pijamas. Tão crianças, Ig e eu. Parece que faz tanto tempo.

Que saudade. Nada do que eu diga parece conseguir transcrever esses 13 anos com o Ig. Tão incrível, tão lindo, tão nosso. Que saudade.

Aquele bonito. Ig nos batizou.


14/6/2013

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Je suis perdue

Se você for, por favor, demora.
Se você for, por favor, não vá.
Que voy a hacer? Je ne sais pas.

sábado, 25 de maio de 2013

Cai aqui



Por causa de você me sinto macia. Por causa de você eu deixei as horas pra lá. Por causa de você eu flutuo entre os dias. Por causa de você eu me esqueço do resto. Por causa de você tudo é o resto. Por causa de você eu manifesto que as sextas-feiras não deveriam existir. Por causa de você eu olho pra cima e peço tempo. Por causa de você eu desandei a me esquecer. Por causa de você estou aqui e me sinto tão macia.

domingo, 19 de maio de 2013

Amor

Beijou, sorriu, seguiu.
“Meu amor”, diziam reciprocamente.
Miravam-se em flerte, abismados.
O amor fez isso com eles:
Destacou-os, unívocos, da multidão.
E conversavam de modo que algo pudesse sempre acontecer.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

silêncios

eu não escrevi seu nome na areia
eu não te dei poema algum

eu não pus seu retrato na estante
eu não falei de ti por aí

eu não chorei no cinema assistindo a romances
eu não guardo objetos que me remetam a você

eu não te enviei cartas de amor
eu nao gritei de dor no fim do dia

eu nao decretei feriados
eu não parei a aula

eu não fiz buquês de flores de jardim
eu não segurei com força as suas mãos

eu não impedi o trânsito
eu não

eu faço poemas para compor os meus silêncios  
eu só uso a palavra para compor os meus (...)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Borboleteando

No caminho por onde passo há múltiplas flores.
Acaso eu te colhesse uma por dia durante um mês, 
restariam ainda outras trinta de aparência diversa e intocáveis. 
Umas que deixei passar propositalmente, 
outras tantas que nem vi.

sábado, 23 de março de 2013

Querena

Tudo o que sei está refletido nesses meus olhos entregues. Velejantes, meus olhos são banhados pelas tuas marés. Marejantes, são acariciados pela tua brisa. Não vês? Não veem? Meus olhos dizem tudo, entregues. Meus olhos seguem tua direção, vela-guia desses ventos insones. Entregues, meus olhos solitários vagueiam por um mar sem fim, à tua espreita. Mas não vês. Não veem. Melhor assim. Navegam solitários e secretos, os meus olhos, quase a salvos de tudo.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Bagatela

Eu não tenho nada pra ti, nada.
Só esse amor imenso cá
dentro.
E um medo danado
dele
              não te servir.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Abrupto

Bruno, antes de sair, deixou um bilhete. Não tinha um amor, diziam, Bruno não sabia chorar, amar muito menos. Era o que diziam. Mas escreveu um bilhete sem remetente nem destinatário e deixou sobre a mesa da sala. Calçou seus chinelos, iria à praia, não se sabe, talvez à padaria. Bruno passou uma mão pelos cabelos e outra nas chaves e voltou à mesa do bilhete. Releu. Amassou o papel branco rabiscado, colocou no bolso, não valia à pena. Daí continuou seu dia, saiu de chinelos e semi penteado, talvez tenha ido à praia, talvez só à padaria ou a nenhuma delas, e o bilhete em seu bolso enquanto andava por aí. Então alguém o achou pelo chão, abaixou-se para pegar e leu. Achou vulgar, tolo, mas guardou no próprio bolso, depois o colocou na mesa de sua própria sala. Não demorou muito para que um outro que lá habitasse lesse, não se sabe o que lhe pareceu, se bom ou ruim, só que no fim da leitura deu um sorriso de canto, que poderia ser de concordância, talvez. Ou não:

“Daí alguém pode imaginar que eu esteja me iludindo. Talvez eu esteja. E ainda podem dizer que eu só sei amar assim, de súbito, logo, enciumado, quase obsessivo, que não sei amar. Talvez tenham razão. O meu amor chega abrupto com o pé na porta, senta, cruza os braços, fecha a cara. Esse é o meu amor, o meu amor só soube amar assim toda a vida. Fecha a cara de braços cruzados, coitado, de ciúme e medo, esperando um afago pra poder sorrir. O meu amor é um tolo mesmo, ama desesperado e quieto, choroso de saudade e fingindo sempre não existir, que é simpatia passageira”

sexta-feira, 8 de março de 2013

O auge do meu dia

Tem aquela hora que eu paro um pouco só pra sentir saudade. Se eu estiver sozinha, choro um pouquinho. Se não, apenas faço silêncio, olho pra outro canto. Nessas horas, que costumam ser quando vem vindo o fim da tarde, e o vento é fresco se se está à sombra, eu paro num canto só pra sentir sua saudade. Lembro daquele dia, de um outro, talvez de um que esteja bem lá atrás. E penso na distância, em como seria se estivesse aqui. Imagino um reencontro querendo que seja perfeito - nessa parte do pensamento tenho medo, porque quero que seja perfeito, e quase nunca é. Imagino que nos sentamos num café ao ar livre para ler e conversar, comer uma boa torta, tomar um café com creme. E a certa altura fazer silêncio para escrever em nossos cadernos. Depois sair para caminhar e conversar mais um pouco, sentindo a brisa, tendo as estrelas logo acima. Talvez até sentássemos n'algum banco, ou não, tanto faria. Mas estaria comigo, apenas comigo, bastaria.