"não tires poesia das coisas."
elas é que tiram poesia de mim,
eu disse, impaciente, a Drummond
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Bruta noite
A bruta noite
Cai sobre meus ombros
e o peso é de tudo o que
não soube, não sei.
A bruta noite me atormenta
Eu quase ouço os risos
Eu quase adivinho os assuntos
E sei que onde há fogo
há fumaça.
A bruta noite
insólita
solitária
Queima em pensamentos
hostis.
A bruta noite pede logo
a luz seguinte
Mas ela não se apresenta
ela se nega e descansa
Do outro lado, onde há paz.
A bruta noite me assiste
E se compadece.
Não há saídas, só ameaça e dúvida
Num caminho de espera
E ausência.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
interruptor
é bonito quando você pisca,
disse na hora mesma em que roubou toda a minha poesia
com sua boca de amora.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Antiga Historieta
Antes de te avistar, avistei teu
reino. Tão, tão distante me parecia, intangível sob o céu azul. Me aprumei, tornei-me
cúmplice da brisa que o preenchia, segui. “Ela está aí se o reino a guarda”,
pensei. Passei tempos a rodear teus encalços, teus giros, teus esconderijos. E
finalmente pus-me de pé ao teu lado. Que suspiro, que cena, que encruzilhada. Incapaz
de arredar, prossegui. Tu, em teu próprio reino, acolhia este cavalheiro, vindo
a galope, triste, a esperança a bater no peito, o sobressalto à tua aparição.
Incansável, quase festejante, eu acompanhava-te por nossos arredores. Se não
estavas, eu perguntava por ti. Estando, eu a retinha o máximo de que era capaz.
Ah! eu renunciei aos outros, eu reneguei às outras vozes para estar somente
contigo e escutar apenas o que dizias - não foi uma escolha, era um imperativo.
Se, por acaso, um outro viesse a ti, eu me calava em meu canto, a observar teu
sorriso radioso que não era para mim. As vezes eu esperava-te voltar, as vezes
dava as costas e ia-me, incapaz de maior tolerância.
Quase enraivecido, eu andava para
longe, decidido: me dedicarei menos a ela, serei menos entusiasta dela, me
repartirei aos outros e logo ela já não me tomará tanto, e logo eu serei
mais... livre. Mas era ouvir-te chamar para o meu ímpeto mudar de figura. Eu
olhava aqueles teus olhos de negro encanto, aquela tua boca pronunciada, teu
sorriso luminoso, teus cabelos negros, soltos, tua pele morena... Eu queria-te
por perto e tanto, a raiva que eu sentia caía lá para o fundo de mim e, momentaneamente,
eu me perdia dela, porque havia encontrado a tua luz.
Passado um tempo, eu já não sabia
reconhecer o que tínhamos. Duvidava, precisava que provasses, que me aprovasses,
eu precisava que dissesses constantemente, e se repetisse. Eu estava absorvido
pelo medo de perder-te. Isto era tudo. Calado. O silêncio quase sufocou o meu
amor. Andei perdido por um tempo. Vivia dubiamente na fugidia busca de ti: ao
encontrar-te, eu precisava me afastar; afastado, eu só te clamava. Eras a
mesma, mas eu não conseguia ver.
Passei um longo intervalo
precisando dizer-te muitas coisas. Teu reino estava mais distante do que nunca.
Passei um longo intervalo em silêncio porque o que eu queria dizer não me saía.
Decidi que bastava do afastamento, que tanto mais eu me impedia dos teus
encontros, mais viva te tornava em minha mente. Baixei a guarda, exceto pelo
silêncio que não arredava, e me aproximei. Tornei a andar ao lado teu, tornei a
te encarar nos olhos e de perto. Embora aquele silêncio não me saísse, eu te
acompanhava. Ficamos muito a sós num dia, mútuos. Mesmo em silêncio, me bastavas.
Ali eu soube que queria falar, que eu saberia dizer. Anunciei que o faria e por
um tempo ficamos à espera. Eu procurava as palavras, eu festejava
silenciosamente porque finalmente diria. Tu me observavas. Eu observava o teto
e meus próprios pensamentos. Abri a boca e disse quase tudo: o medo tanto de
perder-te, que eu te gostava muito. O meu... Ciúme. Tu me escutando, quieta,
como se não estivesse ali. Depois que eu disse quase tudo, pegaste minhas mãos.
Estudou-as como se delas pudesse surgir o que ainda não fora dito. Disseste que
gostavas delas, das minhas mãos, tais como eram. Que deixava pra eles, os
outros, o que restava de si, e que eram minhas as tuas atenções. Eu ouvi-te, na
hora eu soube, eu acreditei, fui às alturas e voltei. Ficamos com as mãos
unidas em silêncio. Eu sabia, tu sabias. Nos pertencíamos.
Depois daquele dia olhávamo-nos
diferente. Com mais atenção, e também com certo constrangimento, talvez um
pouco mais de respeito. E uma afeição envergonhada. Eu fora descoberto – por ti.
Parecíamos encabulados disto. Eu te sabia, nada me abalaria. Engano. Aos poucos
retomei meu silêncio e minha insegurança. Tu pareceste retomar a intrigante
indiferença. Eu já não sabia de ti, e me desvencilhava o quanto podia. Já não parecias
tão minha. Céus. Aquilo nunca teria fim? Aquele silêncio? Aquela dúvida? Céus,
isto não terá fim? Ainda agora eu sinto uma saudade tremenda de ti, e um medo
tremendo de terem te tomado de mim. Parece que estou fadado a isto. Peço que
perdoe a nós: eu, meu silêncio, meu amor desordenado. Desde que avistei teu
reino e te alcancei, tudo ganhou um ar renovado, mais doce e perfumado, mais
intrigante e bonito. E quando me afasto, resta a ausência, e nesta ausência o
que há é a falta. Uma falta que
movimenta e paralisa os dias conforme intensifica ou parece amenizar-se, e
reveste as horas todas dum cinza rosado e fluido, etérea coisa doce e dolorosa,
como a lembrança de ti.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
confidencial
nos poemas em que mais te amo
naqueles em que
transbordas e transbordo
nesses
ainda não puseste os olhos
ainda não puseste os olhos
domingo, 24 de novembro de 2013
Três pontinhos
Têm coisas, Amor, essas que flutuam mas continuam sendo as
mesmas, essas coisas que nos fazem admirar, que nos fazem silenciar, pausar,
abstrair o entorno. Têm coisas, Amor, essas que são ausência, essas para as
quais palavras ainda não foram inventadas, e só há um impulso, um reflexo, uma
gravitação, uma vontade de aderir, de colar, de suprimir, de puxar, de vácuo,
de puft – e todas essas coisas
ainda não são o nome da coisa de que falo. Têm coisas, Amor, que continuam e
que mudam sendo as mesmas. Essas coisas, tão impossíveis quanto realizáveis,
mas ainda assim sem nome, não são do que quero te dizer. Digo, são, mas não
são. Porque eu quero te dizer, mas não vou.
sábado, 9 de novembro de 2013
Eis como me sinto
Estou sem saber-te. O som do riso, o som da boca, o cheiro da
pele, o toque dos dedos, a luz dos olhos vagos e negros, os cabelos negros.
Estou sem saber-te e já perdi as contas de contar-te dos dias todos que tivemos
e cessaram por um tanto de tempo que não sei mais deduzir. Pois é como me
sinto. Sem ti. Estou sem ti há tempos, estou sem ti faz dias. Tomaste
tua condução ontem (ou anteontem?), e disseste: até quarta. Desde lá, não nos
falamos porque decretaste o nosso silêncio. Então é só como me sinto, em
silêncio com o teu.
domingo, 27 de outubro de 2013
Fluvial
Peço
por favor
que não
creias
nas palavras
bonitas
ou feias
que eu possa
emitir.
Peço
que
desconfies,
e chegues
firme
e fundo
nas verdades
que eu teimar
não despir.
E, também,
que não tire
os créditos
todos,
os oportunos
e os tolos,
do meu louco
amor
de mentira
por ti.
Do meu louco
amor
de carícias
por ti.
Do meu louco
amor
Flutuante
Ateu
Devoto
todo teu
Que abana
falácias
e quimeras,
invernos
e primaveras
a cada
instante
que se lança
nas
correntezas
de amar
e desamar.
sábado, 5 de outubro de 2013
Meio-fio
Ali onde eles são
Sou o que sobra
No espaço que resta
Entre o não ser
E o que desprezo
Pela falta
Ou por excesso.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
esquadrinhando
segundo, segundo, segundo.
tu te movimentas
lenta
e eu apreendo teus movimentos
todos
todos
um segundo
após o outro.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
o meu amor está aqui
suas pernas, as pernas do
meu amor, pendem soltas,
sem saber-me. as mãos do
meu amor aparam seus
próprios cabelos, negros.
o meu amor está aqui,
risonho e longínquo,
guardado no peito.
domingo, 1 de setembro de 2013
Gravitação
Vejo-te ao longe. Estás a minha espera. Eu
tremo. Faz tempo que perdi as palavras e prosseguimos em silêncio. Eu me
aproximo a cada passo, e tremo um pouco menos, porque me obrigo a acostumar-me que estar ao teu lado é preciso.
Ao contrário, estando longe, eu sou triste, triste. E não vejo mais
ninguém.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Branco
A dor cobriu
meu peito
mais que
tudo,
em meu peito
mudo,
dorme,
trêmulo,
um coração.
Insígnias de
manhãs dobram
no peitoril
da janela.
Numa outra,
branca franela
golpeia o
rosto sorridente duma criança.
A lutar, a
ter esperança,
caminhamos
ao lado dele.
Hoje acordei
mais cedo.
Ontem, pela
madrugada,
eu dormia quando despertei
distraída
me arregalei
olhos em
pesadelo.
Agora ele
dorme, branco.
Respira
trêmulo, brando.
Os outros
ressonam.
Eu, nada.
Nem ninguém.
Pela janela
esperançosa, o vento.
Pela reza,
que quer crer e não sabe como,
a voz da
solitária prece esbarra nas tantas outras que não,
que nunca se
anunciam.
Ele espera
por ela desde que nasceu, também nós e tudo que tem vida.
Mas ninguém
se acostuma.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Máquina de Escrever
bruta e delicada
maquina de escrever
eu bato os dedos
delicados
bato
tec
bato bato
tec tec,,
Bruta máquina de escrever,
um deslizar e paf!
plim
Puft.
deu defeito.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
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